Por Isabel Miller
Desde o início de 2026, uma mudança no consumo de música K-pop vem acontecendo lentamente na Coreia do Sul. Enquanto as vendas de álbuns físicos alcançam máximas históricas, os números de streaming caem de forma constante.
Dados da Circle Chart, a tabela oficial padrão da indústria musical da Coreia do Sul, mostram que os números combinados de streaming das 400 faixas digitais mais bem colocadas caíram 4,3% em comparação com os números registrados no mesmo recorte em 2025. Embora as porcentagens de cada mês variem, a tendência é de queda consistente; em janeiro houve uma redução de 5,2% no streaming e, em maio, uma queda de 2,3%.
A Circle Chart leva em conta uma variedade de plataformas, tanto nacionais quanto internacionais. No entanto, esses dados também fazem parte de um padrão mais amplo e contínuo, no qual plataformas internacionais estão ganhando espaço no mercado musical sul-coreano e influenciando os números. Um relatório da KOCCA no fim de 2025 afirmou que o uso de plataformas domésticas de streaming de música havia caído pelo sexto ano consecutivo desde 2019. Já parece que 2026 será o sétimo, e provavelmente a maior queda até agora.
Dados da WiseApp e Retail sugerem que o MelOn, principal plataforma doméstica desde seu lançamento em 2004, agora ocupa o terceiro lugar no ranking, atrás do YouTube Music e do Spotify. O YouTube Music ultrapassou o MelOn em dezembro de 2023 e permanece na primeira posição. Em junho de 2026, liderou com 9,49 milhões de usuários ativos mensais, seguido pelos 6,22 milhões do Spotify e pelos 5,93 milhões do MelOn. Para uma plataforma que vinha alcançando consistentemente a marca de 7 milhões, a queda deste ano é especialmente acentuada.
A ascensão das plataformas internacionais pode ser parcialmente responsabilizada pela queda nos números de streaming. No passado, plataformas domésticas como o MelOn incentivavam grandes campanhas de streaming para contribuir com os resultados em music shows, enquanto a migração para o YouTube Music e o Spotify não estimula explicitamente a mesma prática. Muitos music shows ainda não consideram plataformas internacionais em seus números digitais, o que reduz essas campanhas direcionadas.
Algumas categorias específicas também estão registrando queda, com OSTs de dramas e filmes respondendo por 6,4% das 400 faixas mais bem colocadas da Circle Chart na primeira metade de 2026 — uma queda de 1,6% em relação a 2025. As OSTs antes eram um grande impulsionador do streaming musical entre o público geral, à parte dos fandoms de K-pop, impulsionadas pela popularidade generalizada do cinema e da televisão coreanos. Agora, elas já não contribuem no mesmo nível.
Além disso, a presença de lançamentos de K-pop de anos anteriores nas paradas de streaming pode estar agravando a queda nos números. Muitas das músicas mais bem colocadas no momento não foram lançadas em 2026, como “Landing in Love” de HANRORO, “Drowning” de WOODZ e “Good Goodbye” de Hwasa; lançadas em 2023, 2023 e 2025, respectivamente. Embora os streams dessas músicas também contem para os dados gerais de streaming, eles impedem que canções mais novas avancem de forma mais sustentada. Isso ocorre por vários motivos, e não como indicação da qualidade e popularidade da música em si — tendências nas redes sociais fazem músicas antigas ressurgirem, assim como programas de TV e rádio que as apresentam, além do valor nostálgico e da familiaridade de faixas legadas duradouras —, mas isso afeta o interesse por músicas novas e sua descoberta pelo grande público. Embora possam estrear em posições altas, muitas caem rapidamente, substituídas pelas que se mantêm de forma constante nas paradas.
E, de forma notável, as músicas novas que permanecem por mais tempo estão cada vez mais formando outro padrão: remakes. “Pretty Girl”, do RESCENE, uma releitura do original do KARA de 2008, chegou ao primeiro lugar na Circle Chart, e outros grupos como AtHeart e UNIS estão seguindo o mesmo caminho. Embora isso não reduza necessariamente os números gerais de streaming — afinal, esses streams ainda contam, e os rookies por trás deles estão ganhando popularidade —, é um sinal claro de mudança no interesse. Companies e artistas estão ajustando suas estratégias, apostando em parte na familiaridade, e isso pode estar fazendo com que os ouvintes tenham menos contato com sons e artistas totalmente novos, que poderiam gerar altos números de streams. Em vez disso, recorrem aos remakes e aos originais deles como resultado da conversa crescente.
Em contraste com essa queda, há uma alta nas vendas de álbuns físicos, que estão registrando picos dramáticos em um nível nunca visto antes. Foram vendidas 53 milhões de unidades físicas no total entre os 400 álbuns mais bem colocados da Circle Chart na primeira metade de 2026. Como esperado, quem lidera os números é o BTS com ARIRANG, com mais de 4,2 milhões de cópias. Outros lançamentos de destaque incluem GREENGREEN do CORTIS, com mais de três milhões de cópias, e álbuns de BLACKPINK, TOMORROW X TOGETHER e ENHYPEN. Quatorze artistas ultrapassaram a marca de um milhão — somando 22,6 milhões de unidades do total de 53 milhões.
As vendas físicas sempre foram prioridade para as companies do ponto de vista da receita. O K-pop é movido por designs de álbuns exclusivos e itens colecionáveis, desde os próprios conjuntos de álbuns até photocards individuais e outros inclusos, e cada aspecto incentiva os fãs a comprar. As conquistas em vendas de álbuns são celebradas dentro e fora da Coreia, colocando muitos artistas de K-pop nos rankings globais de fim de ano da IFPI. Com a queda das compras digitais e do streaming, isso se tornou ainda mais foco para maximizar o impacto de um novo lançamento; as duas tendências opostas se impulsionam mutuamente.
Também é possível que o aumento nas vendas de álbuns físicos seja resultado de uma tendência mais ampla, de rejeição ao digital e valorização do impresso na mídia em geral. À medida que tudo se torna cada vez mais digital e com a presença da IA, surgiu online um nicho de pessoas que estão largando seus dispositivos e, em vez disso, colecionando mídia física para melhorar seu estado mental e por uma sensação de nostalgia de uma era pré-digital.
No fim das contas, ambas as mudanças terão efeito sobre o mercado, seja isso percebido agora ou no futuro. Depender das vendas físicas deixa a indústria vulnerável; grandes comebacks geram os maiores números e muitas vezes coincidem entre si, criando períodos de altas bruscas e quedas repentinas. Em maio, as vendas de álbuns caíram 18,8% em comparação com abril. Em algum momento, os fãs chegarão a um limite de quantos álbuns estão dispostos a comprar em determinado período, considerando o custo.
Não só isso, como também agrava uma divisão já significativa. Enquanto a indústria for liderada por esses grandes comebacks — com uma porcentagem tão alta das unidades de álbuns vendidas até agora neste ano vindo de um número pequeno de artistas —, artistas menos conhecidos ficam para trás. Embora muitos tenham bons números de streaming digital, especialmente se tiveram algum momento de viralização, os fãs têm dificuldade de competir quando se trata de vendas de álbuns físicos. O Ministério da Cultura, Esportes e Turismo da Coreia tentou reduzir essa diferença ao flexibilizar os limites de financiamento para artistas e empresas menores com o programa “Support for Global Leap”, mas a iniciativa é voltada apenas para planos internacionais e, portanto, não resolve esses problemas; a diversidade musical da indústria continua ameaçada.
Se os números de streaming continuarem caindo, será preciso fazer mudanças para sustentar a indústria. Isso pode significar alterações nos critérios dos music shows, programas para impulsionar plataformas domésticas ou estratégias totalmente novas para estimular o interesse casual por K-pop, em vez de manter a dependência crescente das vendas de álbuns físicos — um desafio que muitas companies enfrentarão nos próximos anos.

