Colocando o K no
Hip-Hop:

Jay Park

Por Sunghee Hwang

Ídolo do K-pop. Vendedor de pneus usados. Magnata do hip-hop. O caminho para o verdadeiro sucesso nunca foi fácil, mas o artista coreano-americano Jay Park teve uma jornada especialmente conturbada rumo à fama.

O artista, de 36 anos, é agora um dos entertainers mais reconhecidos da Coreia do Sul: fundou duas das maiores gravadoras de hip-hop do país, lançou uma série de sucessos, tem sua própria marca de soju e foi o primeiro asiático-americano a assinar com a Roc Nation de Jay-Z.

Mas esse sucesso foi conquistado a duras penas, disse ele à AFP em uma entrevista exclusiva, com sua primeira chance de fama — estrear como líder de uma banda de K-pop — desmoronando em um escândalo que o levou a fugir de Seul para sua cidade natal, Seattle.

"Enfrentei muita reação negativa"

Park disse à AFP, acrescentando que chegou a ser "meio que colocado na lista negra da indústria".

O problema começou com alguns comentários descartáveis postados online por Park — então ainda no final da adolescência — criticando o intenso regime de treinamento de ídolos, a indústria do K-pop e a própria Coreia do Sul.

Foto via AFP/Getty Images

Seguiu-se uma histeria da mídia coreana, com as consequências forçando Park a deixar o 2PM, um grupo de sete membros da grande gravadora JYP Entertainment.

Ele voltou para Seattle e trabalhou em uma loja de pneus usados, mas manteve seus sonhos musicais vivos, eventualmente publicando um cover de "Nothin' on You" — uma canção de B.O.B e Bruno Mars — em seu canal no YouTube.

"Eu só queria mostrar aos meus fãs que eu estava bem, e também queria mostrar às pessoas que tipo de música eu curto, que tipo de artista eu sou. Então eu coloquei um cover e acabou explodindo," ele disse.

Acumulando mais de dois milhões de visualizações em um dia, a música o catapultou de volta à indústria musical e marcou "um novo começo" para Park.

Foto via AFP/Getty Images

Isso também lhe permitiu recalibrar seu estilo musical e migrar do pop para o rap — um movimento que eventualmente ajudaria a transformar a nascente cena do hip-hop da Coreia do Sul.

"Não foi uma decisão calculada nem um grande plano"

Ele disse, mas foi uma tentativa de superar rótulos restritivos.

"Se eu digo que sou rapper, então só posso rimar. Mas eu gosto de rimar, gosto de dançar, gosto de cantar," disse ele, acrescentando que estaria "sempre grato à cultura hip-hop" por ajudá-lo a relançar sua carreira.

Luta pela
Sobrevivência

A história de Park é incomum: é raro que um fracasso no K-pop acabe por resultar em uma carreira musical bem-sucedida após deixar uma das grandes agências em torno das quais a indústria é estruturada.

"Não aconteceu da noite para o dia. Obviamente exigiu muito trabalho"

Park disse à AFP sobre seu retorno musical.

Centenas de milhares de aspirantes a estrelas do K-pop passam pelo extenuante sistema de treinamento de ídolos, notório pelo alto nível de estresse e longas horas, dizem analistas.

Apenas 60% dos trainees conseguem "debutar", mostram números da indústria, e quase todos os que o fazem assinam com grandes agências como HYBE, de BTS, ou sua grande rival SM Entertainment.

Sem esse apoio, "as chances de sobrevivência são realmente baixas", disse o crítico musical Kim Do-heon.

"Há tantos grupos que se dissolvem," ele disse.

Depois que Park deixou o 2PM, ele teve que navegar pela indústria por conta própria, e falou sobre suas dificuldades, por exemplo, em encontrar músicos dispostos a participar de seu primeiro álbum solo.

Mas mesmo quando as probabilidades da indústria estão contra você, disse Park, ainda é possível ter sucesso com a mentalidade certa.

"Há um limite para o que as agências podem fazer por você, e parece que garra e determinação são o que podem preencher essa lacuna," disse ele.

Foto via AFP/Getty Images

Mudar a
Indústria

Agora Park está tentando mudar a indústria — ou seu pequeno segmento dela — para melhor.

Ele já fundou duas das gravadoras de hip-hop mais proeminentes da Coreia do Sul. E agora sua carreira veio full circle com o estabelecimento de uma terceira gravadora voltada à produção de um boy band.

Mas ele está fazendo do seu jeito: ao invés do treinamento meticuloso e dos níveis obsessivos de controle pioneiros das grandes agências, Park diz acreditar que relacionamentos reais e "improvisar juntos" são a chave para o sucesso.

Seus novos trainees terão Park como mentor — algo que ele diz ter desejado quando começou na indústria aos 18 anos.

"Não guardo rancor de nada. Não odeio ninguém. Não desgosto de ninguém. Não tenho tempo para isso. Não tenho tempo para pensar em coisas do passado," ele disse.

"Não posso mudar o passado, então o que posso mudar é o futuro, então é nisso que trabalho."

Foto via AFP/Getty Images