Por que as turnês de K-pop estão pulando Londres?
Por Isabel Miller
Londres há muito tempo é reconhecida como uma cidade com uma cena musical florescente, repleta de gêneros de diversos países e culturas. Ela rapidamente se tornou um ponto de destaque para o K-pop e sua crescente popularidade na Europa. No entanto, à medida que o número de turnês realizadas no continente atinge novos patamares, Londres vem sendo cada vez mais deixada de fora da agenda.
Como berço de bandas icônicas como The Rolling Stones, The Beatles, The Who e muitas, muitas outras, Londres tornou-se profundamente ligada à indústria musical. É considerada o centro da explosão global dos gêneros pop, rock e alternativo nos anos 1960 e continua sendo uma fortaleza, abrigando gravadoras famosas e casas de shows como o Wembley Stadium. Durante anos, a cidade tem aparecido nas aspirações de turnê de artistas globais.
Essa notoriedade não diminuiu. Na verdade, é o contrário. De acordo com o governo do Reino Unido, a indústria de música ao vivo de Londres recebeu 9,1 milhões de visitantes em 2025. Até agora, em 2026, só a produtora Live Nation já informou ter recebido 3,6 milhões de fãs — um aumento de 24% em relação a 2025 —, e tanto grandes quanto pequenas casas de shows também registraram números crescentes. O Wembley Stadium teve seu maior verão de todos os tempos, recebendo sozinho 2,5 milhões de pessoas, e o The O2 também viveu seu agosto mais movimentado da história.
A indústria do K-pop faz parte dessa sequência de recordes. BTS quebrou o recorde de público do Tottenham Hotspur Stadium em julho, com mais de 125 mil espectadores, antes de BIGBANG se apresentar no mesmo local em setembro. KATSEYE, com suas origens inspiradas no K-pop, foi listado como um dos maiores eventos no The O2. O BST Hyde Park registrou sua temporada mais lotada desde a criação, em 2013, após um aumento de capacidade, com ATEEZ tendo sido o headliner de um dos eventos que compuseram esses números, com participação de TAEMIN. Somando todos esses shows, o K-pop fez uma contribuição significativa para a cena de música ao vivo de Londres neste ano.
Apesar disso, os fãs estão percebendo que artistas de K-pop estão deixando Londres de fora de suas agendas de turnê. A lista recente de quem fez isso inclui: EVNNE, PENTAGON, ZELO, ARTMS, NTX, NEWBEAT, MCND, ONEUS, VERIVERY, TRENDZ e outros. Vários dos artistas acima já se apresentaram com sucesso em Londres no passado, então não é como se as empresas sempre tivessem evitado Londres por algum princípio específico. O que mudou?
Não é falta de interesse. Não só o K-pop contribuiu para o ano recordista de Londres na música ao vivo, como também impulsionou a abertura de várias novas lojas de K-pop e o aumento de eventos, tanto organizados por fãs quanto por varejistas. Em 2026, a SOOJIB abriu as portas como a quarta loja dedicada a K-pop da cidade e, mais tarde no ano, a K-playground se mudou para um espaço muito maior devido ao número de visitantes que vinha recebendo. A lista de artistas que trabalham com hello82 em comemorações de lançamento de álbuns só aumenta, de nomes populares como ATEEZ e TXT até artistas em ascensão. Cupsleeves de aniversário e de aniversário de debut, mercados de artistas, encontros antes de shows, sessões de random play dance — os fãs estão mostrando seu amor pelo gênero de todas as formas, e não deram qualquer sinal de que não queiram assistir a shows de K-pop. No caso de 8TURN, inclusive, aconteceu o oposto: o grupo viabilizou um show em Londres por meio da plataforma de fãs Kooky, com mais de 200 ingressos vendidos antecipadamente.
Na verdade, o que acaba pesando mais são os custos e a logística. O preço do combustível e do transporte disparou desde a pandemia de COVID-19 em escala mundial, e, para artistas de K-pop que visitam o Reino Unido, a distância entre os países se torna um fator prejudicial. Especificamente em Londres, o The I Paper informou que os preços dos hotéis subiram 26% entre 2019 e 2024. Essa trajetória de alta provavelmente continuou nos últimos dois anos, acompanhando o aumento do custo de vida, o que torna as viagens caras quando se leva em conta a quantidade de equipe de turnê e de produção necessária, sem nem considerar o show em si.
O custo de locação de equipamentos de palco no Reino Unido aumentou entre 15% e 20%, segundo a BBC, assim como o custo de reservar casas de shows. Espaços menores estão lutando para se manter de pé diante de aluguel, contas de energia e taxas comerciais — a instituição de caridade do setor Music Venue Trust registrou que 53% deles em todo o Reino Unido não obtiveram lucro em 2025 —, mas os artistas e as empresas de turnê também não conseguem arcar com os custos. Locais maiores sobrevivem aumentando suas taxas de aluguel, e grandes artistas, que podem contar com enormes bases de fãs para continuarem gastando, lidam com o problema elevando os preços dos ingressos. Já artistas menos populares não têm essa garantia para sustentá-los e não podem aumentar os preços, além de terem de administrar os demais custos elevados de espaços menores. Como resultado, muitos simplesmente não podem arriscar organizar shows em Londres (e muitas vezes em outros lugares do Reino Unido) por motivos financeiros.
Conseguir os vistos corretos para os artistas e suas equipes realizarem shows no Reino Unido continua causando complicações adicionais, com regras rígidas que exigem ampla comprovação da relevância criativa do artista para obter aprovação. Cobertura da mídia, prêmios internacionais e grandes performances globais são todos avaliados, e os pedidos também exigem referências de nomes e organizações reconhecidos no setor. Para artistas internacionais menores, reunir essas evidências — assim como obter aprovação de vistos para a equipe de turnê vinculada, por sua vez, às comprovações do artista — pode ser desafiador.
Cada vez mais, parece que Londres está se tornando um destino de turnê tão aspiracional que os artistas acabam sendo excluídos. Mesmo quando alcançam popularidade suficiente para justificar uma turnê pela Europa, Londres continua fora de alcance até que essa popularidade cresça e faça com que o custo valha a pena.
Até que o setor de base se recupere, infelizmente esse padrão de artistas de K-pop pulando Londres provavelmente vai continuar. A comunidade de K-pop em Londres e no Reino Unido como um todo está crescendo, como demonstram os eventos em grande escala que vêm acontecendo, mas a falta de eventos de artistas menores ameaça frear esse crescimento. Se o país continuar excluído, existe a possibilidade de que esses artistas nunca recebam essa visibilidade e esse apoio e, por consequência, que o espaço do K-pop no Reino Unido chegue a um impasse — crescendo apenas até onde os maiores artistas permitem, enquanto os nomes em ascensão não conseguem se firmar.
Nos próximos meses, vários artistas coreanos vão arriscar a visita: YOUNG POSSE, BIG OCEAN, H1GHER SEASON, can’t be blue, TAEMIN, ENHYPEN e mais já anunciaram datas de shows em Londres. Mas, sem apoio dos fãs, o número vai diminuir — eles precisam do seu suporte para mudar essa tendência.




