A versão de Julian Lerner mostra até onde a influência da música coreana realmente se espalhou
Por Chyenne Tatum
O cantor americano em ascensão Julian Lerner está ganhando destaque entre os ouvintes coreanos por sua releitura em inglês da popular balada coreana de 1999, “Geudaeman Itdamyeon”, que, em inglês, significa “If Only I Had You”. No seu single mais recente, “Even If”, o artista de 18 anos reimagina o original dos anos 90 como uma faixa dance-pop nostálgica em vez de uma balada, dando-lhe um toque moderno sem abrir mão da sensação de saudade na produção e na letra. Considerando que o K-pop bebe da música ocidental desde sua origem, ver essa influência seguir na direção oposta está ressoando com pessoas muito além do que o cantor esperava.
Remontando a Seo Taiji and Boys nos anos 90, a música coreana passou a incorporar gêneros como hip-hop, techno e rock para modernizar a cena musical da Coreia do Sul. O fundador e ex-CEO da SM Entertainment, Lee Soo-man, também se interessou por artistas da Motown e figuras como Michael Jackson enquanto estudava na Califórnia. Com base no que havia absorvido da música americana e da cultura pop, Lee voltou para casa em 1985 e passou a trabalhar como DJ e apresentador, fundando mais tarde a SM Entertainment em 1995 e se tornando uma das principais forças por trazer R&B, funk, dance, pop e hip-hop para o público adolescente da Coreia.
O interesse do K-pop pela música ocidental nunca diminuiu desde então, adaptando continuamente o que faz sucesso no exterior para caber em um contexto coreano. Até as baladas — hoje um gênero consolidado, distinto do som típico do K-pop — têm raízes ocidentais, inspirando-se no soul e no R&B e sendo popularizadas por artistas como Lionel Richie e Barbra Streisand. O trot, frequentemente considerado o gênero mais especificamente nacional da Coreia, também carrega influências japonesas, americanas e europeias. Quase toda grande forma de música popular coreana desde os anos 1950, de algum modo, cruzou com a música ocidental.
As baladas coreanas, porém, trazem um toque cultural bem específico que transforma suas origens americanas em algo que soa autenticamente diferente. Para muitos coreanos, essa é a música com a qual cresceram ao longo dos anos 1980 e 1990, passada adiante por seus pais. Parte disso explica por que a resposta ao remake de Julian Lerner foi tão calorosa. Originalmente interpretada pelo duo coreano Ilgiyebo (coreano para Weather Forecast) em 1999, “If Only I Had You” já foi refeita várias vezes desde então — pelo grupo de rock Loveholics em 2006, como OST para o webtoon Soulmates of Past Life em 2022, e pela banda de rock Nerd Connection em 2023. “Even If”, de Lerner, marca a primeira vez que um artista ocidental a reinterpreta, abordando a balada a partir de fora da tradição da qual ela surgiu.
Antes da carreira musical, Lerner teve seu primeiro papel como ator na comédia natalina de 2017 Pottersville, seguido pelo filme da Netflix de 2021 Yes Day e por Zombies 4: Dawn of the Vampires, do Disney Channel, em 2025. “Even If” marca seu quarto single desde que ele passou a focar mais na música.
A reação coreana ao remake tem sido notavelmente calorosa. Um comentário no YouTube elogiou o arranjo por preservar a sensação da original enquanto lhe dava uma sensibilidade pop, chamando-a de a releitura mais perfeita que a pessoa já tinha ouvido em anos. Outro destacou como parecia incomum ver uma música coreana reimaginada por um artista de fora da Coreia, agradecendo a Lerner pelo gesto.
Músicas de K-pop que usam samples ou interpolam faixas ocidentais não são novidade — “BOOMPALA”, de LE SSERAFIM, recentemente sampleou “Macarena”, e “DDI RO RI”, de MEOVV, vai ainda mais longe, recriando a “Toccata and Fugue in D minor”, de Bach. A escolha de Lerner segue na direção inversa, e isso não é por acaso. Ele já falou abertamente sobre sua admiração pelo K-pop, publicando conteúdos de reação e covers de TWICE no passado — trata-se de um envolvimento intencional de um fã com o gênero, e não de uma fusão aleatória.
Com a presença do K-pop crescendo no mainstream e Kpop Demon Hunters chamando atenção global, mais pessoas estão olhando para a Coreia do Sul em busca de inspiração — um sinal de que a influência do país sobre o consumo musical global está começando a fluir nos dois sentidos. A homenagem de Lerner ao passado reforça a mesma ideia por outro ângulo: o K-pop como existe hoje é inseparável das décadas de troca musical que o construíram.