Review: NMIXX & Pabllo Vittar – MEXE
by Hasan Beyaz

“MEXE” é o tipo de colaboração que, no papel, não deveria funcionar, mas que na prática supera totalmente as expectativas. A superstar drag brasileira Pabllo Vittar e o girl group mutante da JYP, NMIXX, se uniram para um single conjunto em grande escala — não uma participação rápida, mas um verdadeiro palco compartilhado. O resultado é uma faixa dance suada e maximalista, que soa ao mesmo tempo profundamente K-pop e inconfundivelmente Pabllo, um crossover raro que eleva os dois lados em vez de achatá-los em um compromisso sem graça.
Desde os primeiros segundos, fica claro que “MEXE” foi construído com o mesmo peso para ambos os atos. Pabllo abre com autoridade e leveza — “So come here, open the way so I can pass” — uma linha que funciona tanto como uma exigência pronta para a pista quanto como uma metáfora para visibilidade queer. NMIXX entram imediatamente, não como apoio, mas como parceiras de verdade, com vocais tão intensos quanto os da colaboradora. É raro ver uma collab entre K-pop e artista internacional em que o grupo coreano não apareça só com um bridge ou uma linha breve no refrão. Aqui, as integrantes ocupam a faixa inteira, trocando versos e dividindo os hooks com Pabllo até tudo soar como um projeto de grupo único.
Musicalmente, “MEXE” parece entrar em uma linha do tempo alternativa em que NMIXX seguiram o blueprint girl crush do início da 4ª geração. A faixa carrega um brilho de alta octanagem e um bounce pesado no baixo, feita para as pistas, mas moldada com a precisão de um title track de K-pop. O refrão é minimalista e baseado em chant — “Mix, mix, mix / This that shit that make you—” — pensado para explodir ao vivo. Há uma sensação de universalidade deliberada ali; mesmo sem decifrar a letra inteira, o ouvinte é levado pela energia.
Mas, além da diversão na superfície, existe simbolismo na escrita. Referências a Ferraris, gasolina e movimento apresentam a música como algo de propulsão — uma declaração de velocidade, visibilidade e avanço sem pedir desculpas. O refrão “open the way so I can pass” ressoa como um grito de batalha do queer pop quando você ouve NMIXX e uma das drag queens mais famosas do mundo gritarem isso juntas. Para um girl group de K-pop dividir essas linhas, sem eufemismo ou diluição, é discretamente radical.
É aí que a colaboração ganha seu verdadeiro peso. Pabllo Vittar não é apenas mais uma participação internacional; ela é uma das performers drag mais visíveis do mundo, um ícone queer no Brasil e uma estrela pop que passou anos conectando a cultura club brasileira local às tendências globais do dance-pop. Ter NMIXX lado a lado com ela é mais do que um experimento estilístico — é uma imagem de inclusão que o K-pop historicamente hesitou em abraçar. O fato de terem filmado, dançado e cantado juntas no mesmo espaço só reforça essa mensagem: isso não é tokenismo, é parceria. E isso foi além das filmagens do vídeo — Pabllo até gravou seus vocais nos próprios estúdios da JYP em Seul, com Choi Hyejin na engenharia, consolidando a colaboração como uma produção K-pop totalmente integrada, em vez de uma simples troca remota de arquivos.
Visualmente, o clipe vem com o tipo de polimento de alto orçamento normalmente reservado às promoções coreanas: cenários brilhantes, coreografia em grupo e espetáculo suficiente para reforçar a ambição da faixa. Ver Pabllo executar a coreografia de K-pop ao lado de NMIXX é divertido e, ao mesmo tempo, histórico. Em um gênero global que frequentemente fala de diversidade, mas continua cauteloso em sua linguagem visual, “MEXE” empurra a porta um pouco mais para abrir.
E ainda há o contexto de mercado. A LATAM se tornou um dos territórios de crescimento mais rápido do K-pop nos últimos anos. A infraestrutura de fandom por lá é apaixonada, organizada e muito ativa online. Fazer parceria com Pabllo — um nome popular, pioneira LGBTQ+ e estrela de múltiplos gêneros — não é apenas uma escolha criativa, mas também estratégica. Para NMIXX, isso as coloca na vanguarda da expansão global do K-pop, alinhando o grupo com uma região que só vai se tornar mais central na próxima década. Para Pabllo, isso amplia sua presença na Ásia, colocando-a ao lado de um dos girl groups mais aventureiros da cena.
O mais impressionante é como “MEXE” se encaixa naturalmente na discografia de NMIXX. Desde a estreia, elas carregam o rótulo de “genre-fluid”, transitando entre drops pesados de EDM, funk retrô, bubblegum pop e baladas de alto conceito sem perder a identidade. Esta faixa estende essa versatilidade ainda mais para a zona do club-pop global — um espaço que elas ainda não tinham ocupado por completo até agora — e elas brilham nele. A transição soa orgânica, e não oportunista, o que explica por que tantos ouvintes observaram que “MEXE” poderia muito bem ter sido um title track de NMIXX.
Também há um efeito sutil em cadeia aqui. Ao se tornarem o primeiro grupo de K-pop a colaborar com uma drag queen brasileira, NMIXX estão expandindo os limites do que colaborações de K-pop podem ser. É um sinal de que inclusão, visibilidade queer e crossover transcultural não são apenas bônus simpáticos — eles estão se tornando centrais para a narrativa global do K-pop. Fãs online já chamaram o grupo de “aliadas” por trabalharem com Pabllo, e, tenha sido essa ou não a intenção explícita da JYP, a mensagem visual é inegável. Isso manda um recado tanto para fãs queer quanto para o público internacional de que o K-pop está disposto a dividir espaço com artistas fora da sua zona de conforto tradicional.
E, no fim de tudo isso, a música simplesmente arrebenta. É o tipo de faixa que pede volume alto — em clubes, festivais ou no próximo show da turnê de NMIXX, onde os fãs sem dúvida vão estar desesperados para ver a coreografia completa ao vivo. É energética, viciante e transborda personalidade dos dois lados.
Com “MEXE”, NMIXX provam mais uma vez que conseguem pegar qualquer gênero e dobrá-lo à sua própria linguagem. Pabllo Vittar, por sua vez, segue reinando como uma das artistas mais destemidas quando o assunto é romper limites. Juntas, elas criaram uma faixa divertida, inclusiva, transcultural e — talvez o mais importante — voltada para o futuro. Não é apenas uma collab curiosa; é uma declaração sobre para onde o K-pop está indo.